Notícias

A+ A A-

09/05/2019

Sensor Econômico: "Os limites da gestão dos juros e do câmbio na expectativa de um eventual governo argentino em 2020"

Compartilhe nas redes sociais  
OS LIMITES DA GESTÃO DOS JUROS E DO CÂMBIO NA EXPECTATIVA DE UM EVENTUAL GOVERNO ARGENTINO EM 2020
 

 

Por Eduardo Velho – Conselheiro do CORECON-SP
 

 
Uma possível vitória da ex-presidente Cristina Kirchner sobre Maurício Macri nas eleições de outubro, sinalizada nas últimas pesquisas de intenção de voto, tem elevado a incertezas e pressionado ainda mais a desvalorização do peso ante o dólar. De fato, as preocupações tem racionalidade, pois a perspectiva do retorno de Kirchner ao poder levanta a preocupação de que a Argentina não pague sua dívida pela terceira vez em menos de vinte anos.

 

A pesquisa da consultoria Oh! Panel apontou que, se a eleição presidencial fosse hoje, a ex-Presidente teria 43% dos votos contra 35% de Macri, no cenário de segundo turno. Em uma outra pesquisa, do Instituto Circuitos, Cristina teria 44% dos votos contra 36,6% de Macri. O impacto negativo dessas pesquisas sobre os mercados foi imediato: os swaps de inadimplência de crédito da Argentina aumentaram para um nível superior a 1.000 pontos base e aceleraram a demanda de dólares e a desvalorização do peso, o que reforçaria a escalada inflacionaria futura.

A partir desse panorama, as taxas de juros definidas nos leilões de títulos de liquidez de sete dias aumentaram para 73% e o Banco Central argentino voltou a realizar a intervenção na ponta de venda no mercado cambial, através das seguintes regras: (i) venderia dólares, ainda que a cotação encontrasse abaixo de 51,45 pesos, mas volume e frequência dependeriam da dinâmica do mercado; (ii) no caso da cotação aumentar acima de 51,488 pesos por dólar, a autoridade monetária aumentaria o volume diário de venda em US$ 150 a US$ 250 milhões e também poderia determinar intervenções adicionais para neutralizar a volatilidade considerada excessiva.

Com as medidas de intervenção das políticas monetária e cambial e do apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), o dólar recuou mais de 2% na segunda-feira da semana passada para 45,6 pesos, após ter acumulado uma valorização de quase 10% na semana anterior para o nível de 46,9 pesos. Entretanto, a despeito da melhoria de 0,2% do índice mensal da atividade econômica em fevereiro - sendo a terceira alta consecutiva - o movimento é de retorno à desaceleração e o aumento foi puxado pela agricultura. A alta desse indicador já tinha desacelerado de 1% em dezembro de 2018 para 0,6% em janeiro. 

As taxas de juros significativamente elevadas, atualmente na faixa de 70%, e o ajuste fiscal, contraíram ainda mais a economia argentina, sobretudo o consumo das famílias e o investimento. O déficit argentino em transações correntes do balanço de pagamentos continuou elevado nos primeiros anos do governo Macri, em torno de 4% do PIB, o que também impediu a revalorização do peso. Como a inflação não foi debelada a tempo antes das eleições presidenciais de outubro, as chances de Kirchner retornar ao poder são elevadas e claro, com elas as medidas populistas de intervenção na área de preços e o descontrole dos gastos públicos.

Avaliamos que a elevação da taxa de juros e a nova política de venda de dólares não deverão ser suficientes para reverter a espiral inflacionária de curto prazo e esfriar a demanda de dólares que leve a uma revalorização para uma faixa de 30 pesos por dólar. A demanda de títulos com remuneração em pesos torna-se mais inelástica ao nível elevado da taxa de juros, o que reduz a potência da política monetária no ajuste para revalorizar o peso e conter a inflação. Há um espaço cíclico de crescimento na Argentina nos próximos anos, mas esse movimento depende da confiança das medidas e dos resultados esperados da política econômica.  

Conclui-se que no cenário da vitória de Cristina Kirchner e o retorno de um governo heterodoxo na área econômica o ajuste recente dos instrumentos da política monetária e cambial poderá não ser suficiente para sancionar a oferta de proteção (hedge) demandada pelos agentes econômicos.
 
Economista Eduardo Velho - Conselheiro do Corecon-SP, vice-Presidente da OEB e sócio-executivo da GO Associados

Voltar Imprimir

Preencha o formulário e atualize o seu cadastro no CORECON.