Notícias

A+ A A-

18/09/2018

Sensor Econômico – Setembro de 2018, elaborado pelos Economistas Eduardo Velho e Manuel Enríquez García

Compartilhe nas redes sociais  

 

 

 

Incertezas Adicionais, mas Taxas de Juros se Mantém em 6,5%

Eduardo Velho e Manuel Enríquez García*

 

A dinâmica da inflação de curto prazo segue favorável, o que torna um fator relevante para manter a taxa básica de juros em 6,5%, alinhada com o nosso cenário de curto prazo. Ao comparar a mediana das expectativas de inflação de 4,11% da última reunião do Copom, se constata  recuo para 4,05% às vésperas da decisão de setembro. Para 2019, as expectativas passaram de 4,10% para 4,11%.

O choque de alta dos preços decorrentes da greve dos caminhoneiros foi rapidamente revertido nos índices de preços ao consumidor de agosto e setembro. De fato, o IPCA de agosto registrou deflação de -0,09% e os índices de núcleo -- que tentam captar a tendência -- seguem ancorados. A média dos núcleos do IPCA acumulado em 12 meses aumentou de 2,94% em julho para 2,96%, mas continua significativamente abaixo da meta central. A taxa de inflação subjacente dos serviços desacelerou de 0,37% em julho para 0,12% em agosto, enquanto no subgrupo Alimentos a deflação de -0,12% acelerou para -0,34% na mesma comparação. O grau de disseminação dos preços, medido pelo indicador de difusão do IPCA, tem se mantido moderado, próximo da vizinhança de 50%.

Esperamos recomposição dos preços nos índices a partir de setembro e outubro, após a dissipação da reversão do choque da greve dos caminhoneiros, mas as taxas ao consumidor ainda devem oscilar entre 0,35% e 0,40%. Entretanto, a depreciação acentuada do Real ante o Dólar nos últimos meses, captada de forma mais explícita nos preços do atacado dos IGPs, tende a repercutir na inflação na ponta nos próximos trimestres na medida que a economia brasileira retomar uma taxa de crescimento superior às taxas atuais na faixa de 1,4%, como aponta a mediana das previsões do mercado. No curto prazo, esse repasse é limitado pelos elevados níveis de ociosidade existentes na atividade econômica e no mercado de trabalho.

Uma mudança da taxa de câmbio elevaria o custo das importações, os preços dos bens tradeables exportáveis e demais custos setoriais referenciados pelo dólar. Entretanto, o movimento precisa ser persistente, ou seja, uma elevação do dólar de US$ 3,7 para US$ 4,2/US$ não necessariamente provoca uma mudança relevante nas projeções, se, por exemplo, ocorrer uma tendência da revalorização do real após a eleição.

Pela ótica da atividade econômica, a desaceleração da alta anualizada do PIB de 2,1% no quarto trimestre do ano passado para 1,0% no segundo trimestre de 2018 confirmou a revisão para baixo das projeções de crescimento real do PIB, o que reforçou a contribuição deflacionária da atividade, além do fato que os recuos da taxa de desemprego e a geração de emprego tem sido mais lentos do que se esperava no início deste ano. A taxa de desemprego recuou para 12,3% em julho, mas estivéssemos crescendo com uma taxa real do PIB de 3% esse nível já teria recuado para quase um dígito no início deste trimestre.

A despeito do quadro de recuperação moderada da economia interna e da inflação inferior à meta central de curto prazo, não se pode relativizar o impacto potencial de elevação da inflação: (i) tem ocorrido uma revisão para cima da expectativas para o câmbio ao final de dez-2018, ressaltando que no critério Top Five a mediana das previsões subiu de R$ 3,90/US$ para R$ 3,95/US$; (ii) o aprofundamento da guerra de tarifas comerciais não pode ser relativizado, muito pelo contrário, pois, maior protecionismo no mundo, significa menos crescimento e menos fluxos, e um contexto adicional de aversão ao risco, que também repercute na demanda de dólar; (iii) a perspectiva da política fiscal de curto prazo teria piorado na margem em relação ao Copom anterior, com a redução das previsões de crescimento econômico e ainda indefinição eleitoral com as perspectivas de avanço das reformas estruturais, sobretudo a necessidade de reduzir a proporção das despesas obrigatórias no orçamento primário total.

A decisão do Copom já está precificada na curva futura de juros e alinhada com o nosso cenário, de manutenção da taxa básica de juros em 6,5% pelo menos até o final de outubro. Além disso a diretoria colegiada do Bacen deverá deixar a “janela aberta” para eventuais ajustes da política monetária, pois o cenário de maior volatilidade no mercado cambial e a deterioração das moedas de várias economias emergentes demandam monitoramento sistemático da demanda de hedge e do fluxo cambial de entrada e saída de recursos. Na margem, o quadro de incertezas piorou um pouco em relação à reunião anterior do Copom, refletido pelo patamar da taxa de câmbio no contexto de imprevisibilidade eleitoral. A autoridade monetária não comentará sobre a trajetória do risco eleitoral, mas reiteramos que as incertezas sobre a estagnação ou o avanço das reformas necessárias, podem repercutir em ajustes futuros, tanto da política monetária como cambial.

Esse contexto de incertezas do desfecho da eleição presidencial tem elevado a taxa real de juros na curva da NTN-B, que já aponta taxas acima de 5%, refletindo os riscos fiscais de estagnação das reformas, sobretudo adiamento da reforma da Previdência. De qualquer forma, mesmo com a deterioração do balanço de riscos na margem relação ao Copom de agosto de 2018, o ambiente e as projeções de inflação corroboram pela manutenção da taxa básica de juros em 6,5% até o final do pleito presidencial.

 

*Manuel Enríquez García, Prof. Manolo. Prof. Dr. da FEA/USP, Presidente do CORECON-SP e da OEB; Eduardo Velho, Conselheiro do CORECON-SP e Vice-Presidente da OEB

 

Voltar Imprimir

Preencha o formulário e atualize o seu cadastro no CORECON.