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15/05/2017

“Processo de Ajuste” - Leia artigo do Economista Rogerio Mori, prof° da FGV-SP

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Processo de Ajuste

Rogério Mori[1]

 

O ambiente econômico brasileiro atual, diferentemente do que imaginado por vários analistas há alguns meses atrás, mostra-se permeado de fortes dúvidas em múltiplas dimensões.

 

Nesse sentido, era esperado que a recuperação da atividade econômica brasileira fosse mais visível neste momento. As projeções apontavam para um crescimento do PIB brasileiro acima de 1% em 2017 relativamente ao verificado no ano passado. Ao mesmo tempo, imaginava-se que o pior em termos de desemprego já tivesse ficado para trás. A realidade dos fatos, no entanto, mostra-se extremamente diferente da apontada há algum tempo atrás. A economia brasileira segue patinando, sem sinais concretos de uma retomada mais robusta da atividade econômica. Ao mesmo tempo, o desemprego segue elevado e sua queda nos próximos meses deve ocorrer muito mais por efeitos sazonais e não por uma recuperação concreta. Em função disso, as projeções de crescimento do PIB brasileiro têm sido recorrentemente revistas para baixo ao longo dos últimos meses e já se situam em um patamar inferior a 0,50%. O otimismo verificado após a finalização do processo de impeachment rapidamente se esvaiu ante a realidade dos fatos de que a economia brasileira segue estagnada.

 

A frustração com o desempenho da economia brasileira decorre do fato de que, diferentemente das desacelerações da atividade ocorridas anteriormente no nosso País, a situação atual exibe contornos significativamente distintos. Sob essa perspectiva, a recessão atual está mais associada ao fim de um ciclo de expansão do crédito, associado a um elevado grau de endividamento dos agentes privados (empresas e famílias). Esse fenômeno tem conjugado um processo de ajuste no balanço das famílias (e empresas) no sentido de reduzir o seu grau relativo de endividamento. A consequência direta desse processo é associada à retração no consumo das famílias e à queda dos investimentos produtivos no País. Em outras palavras, a demanda do setor privado segue estagnada, decorrência direta do processo de ajuste em curso.

 

Em circunstâncias normais, quando um governo se defronta com um quadro de retração acentuada da demanda do setor privado, o contraponto a esse processo é feito através da expansão da demanda do setor público, através do aumento temporário dos gastos do governo. Alternativamente, o governo poderia reduzir impostos como uma forma de estimular o consumo das famílias. No entanto, a gravidade do quadro fiscal brasileiro, em um contexto de déficit público elevado e de uma dinâmica de aumento acentuado da dívida pública, inviabiliza o uso desse instrumento, limitando a ação do governo para inverter o sentido de retração da demanda agregada e abreviar o ciclo recessivo atual. A liberação dos saques do FGTS representou uma medida não convencional no sentido de tentar estimular a demanda, procurando abreviar o processo de ajuste em curso no balanço das famílias.

 

Uma alternativa a esse processo seria promover a redução da taxa de juros brasileira. De fato, isso tem acontecido de forma sistemática nas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. As quedas observadas têm sido possíveis graças à queda da inflação, que tem surpreendido positivamente ao longo dos últimos meses. É bem possível que, na presença de novas surpresas positivas no campo da inflação, a taxa de juros caia de forma mais acentuada, o que se mostra positivo no contexto econômico atual.

 

No entanto, o alcance ada redução da taxa de juros em torno de estímulos à demanda agregada pode ser relativamente limitado na presença do elevado endividamento dos agentes privados. Isso decorre do fato de que, apesar da melhoria das condições de crédito que ocorre em função da queda dos juros, o elevado endividamento das famílias e empresas limita o potencial de novas dívidas e, consequentemente, da ampliação do consumo e do investimento.

 

Em outras palavras, não há muito que possa ser feito na economia brasileira neste momento além do processo de ajuste em curso, sendo que o crucial para o futuro é o ajuste fiscal.

 



[1] - Professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.

 

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